COLUNA: MOONLIGHT(2016) , O DÉFICIT SENTIMENTAL E A COLORIZAÇÃO DAS EMOÇÕES.
- João Bornhofen

- 29 de out. de 2021
- 4 min de leitura
O AZUL NOTURNO DO ESQUECIMENTO E DA FRAGILIDADE DAS RELAÇÕES HUMANAS.
Em determinado momento, Juan ( Personagem que rendeu o Oscar mais do que completamente merecido à Mahershala Ali), conta à Little ( ALex Hibbert, na fase infantil do personagem), que em sua terra natal, Cuba, quando ia à praia de noite, uma senhora sempre dizia que, pessoas como ele (negras) se tornavam azuis. O personagem narra tal evento de forma anacrônica, mas jamais com tom de amargura. Parece ter sido algo que ele aceitou, como característica, passando a eventualmente se tornar uma espécie de personificação. Juan, afinal, é um cubano vivendo em solo estadunidense, em pleno século XX ( O filme transita entre os anos 70 até os anos 90), e passa a vida adulta trabalhando como traficante.
É curioso pensar como a estrutura narrativa de Moonlight , escrita e dirigida por Barry Jenkins, Ganhando o Oscar de melhor filme em 2017, incita o questionamento do determinismo.
Acompanhamos Little, ou Chiron ( Nome de batismo) em sua versão criança (Alex Hibbert), adolescente (Ashton Sanders) e adulta ( Travante Rhodes), morando em um bairro dos subúrbios de Miami, aquela que os cartões postais não mostram, sendo negro e se descobrindo como homossexual, enquanto lida com a ausência paterna ( Preenchida pelo personagem de Mahershala Ali), e com sua mãe (Naomi Harris) que trabalha como enfermeira, mas também se prostitui para bancar as contas da casa.
A sucessão de eventos que ocorrem no filme não poderiam ser uma ode maior ao tradicionalismo da era de ouro em Hollywood. Não temos aqui demagogias ou influências existencialistas perante nosso protagonista, pelo contrário, a cada etapa de sua vida que nos é apresentada , seja sob a alcunha de LITTLE (Criança), CHIRON (Adolescente) ou BLACK ( Adulto), são removidas gradativamente cada vez mais barreiras expositoras e didatismos gratuitos, dando lugar a um silêncio contemplativo, não somente em caráter do protagonista, mas como o filme abraça o subjetivismo de seus personagens e usa tal ferramenta como motor-matriz para o avanço da trama.
A trama poderia ser sumarizada como uma série de sucessão de eventos na vida do protagonista, e sempre que um capítulo de sua vida se encerra, o filme avança anos à frente, nos tirando a possibilidade de presenciarmos o desenvolvimento que resultou no começo dos capítulos seguintes ( Aqui divididos entre infância, adolescência e adulto), e justamente por isso a trajetória fica mais interessante.
Perceba que após os momentos iniciais de apresentação, o filme puxa para sua narrativa um apelo ao subjetivismo e até ao onírico, e consequentemente se estamos assistindo uma história, que faz questão de pular etapas da vida do personagem, para justamente nos mostrar pontos específicos de sua trajetória, então nos fazendo dissertar sobre o que aconteceu entre as etapas de sua vida, nos deixando julgar pelas atitudes do agora, para assim entendermos a lacuna deixada. No mínimo brilhante.
Não à toa , o livro que originou o filme , IN MOONLIGHT BLACK BOYS LOOK BLUE (Tarell Alvin McCraney's), não deixa claro que os 3 capítulos são protagonizados pelo mesmo personagem. Porém a escolha de Jenkins foi certeira, e contribuiu para a melhor narrativa visual possível. Chega a ser impressionante o quão o filme consegue expressar, com cenas em suma maioria carentes de diálogos ou de ações acontecendo simultaneamente. Simula quase que um flerte com o niilismo, visto que é nítida na belíssima fotografia, toda composta pelo uso de lentes anamórficas, que dão um toque visual quase que de pintura plástica, a queda progressiva à desvalorização do sentido, a morte do propósito , e a eventual aceitação de que todos acabaremos exatamente como começamos.
De certa forma a contemplação perante o pessimismo reflete não somente a psique da saúde mental do protagonista, agravada a cada nova etapa de sua vida, como também ajuda a entendermos as desilusões que o cenário sempre nos propicia.
Litte/Chiron/Black vivem um dia por vez, sem jamais terem a certeza do que o amanhã reserva. Cada dia é feito o mínimo para que se chegue no próximo, por mais que não pareça haver justificativa para isso. Ao mesmo tempo, o filme entrega sim uma dose mais do que necessária de sentimentalismo, porém um sentimentalismo rodeado por desesperança e traumas. Justamente por isso é tão significante quando percebemos, que por trás de toda a dor pela carência de oportunidade, os traumas que vieram da criação maternal, e até mesmo a prisão e o ciclo de violência também carregado à vida adulta, Little/Chiron/Black ainda se permitem sentir.
Não há cena melhor para servir como um farol de otimismo, dentre o grotesco e sombrio mundo ao redor, do que a cena em que Chiron ( Etapa adolescente) e seu amigo Kevin ( Versão jovem interpretada por Jharell Jerome, criança por Jaden Piner e adulta por André Holland), estão na praia, sob a luz do luar e contemplando o vasto vazio das suas introspecções, quando Chiron , tendo se descoberto gay, descobre que seu amigo de infância, uma das poucas pessoas as quais que tem um vínculo afetivo na vida, também é. E acima de tudo, também compartilha o sentimento mútuo de Chiron.
Tal sentimento transcorre até chegar na fase adulta de sua vida, quando Black reencontra o antigo amigo, agora com filho e trabalhando num restaurante como garçom. Kevin liga para Black e ao se reencontrarem há muito não dito, porém a expressão de Black ao ver Kevin, ou o carinho e lembrança que ambos compartilham é algo que foge às palavras, ainda não inventaram semântica suficiente para suprir o déficit emocional, e não há necessidade visto que tudo que deveria ser dito já fora.
Em um dos momentos finais do filme Black assume que Kevin foi o único homem que tocou nele, e o único que ele quis ser tocado. Essa frase, num filme repleto de silêncios inóspitos e gritos sussurrados, conclui o arco de Little/Chiron/Black. Ele chegou em termos com sua identidade. Ele confronta seus sentimentos e traumas, e ao invés de escolher a dor, que foi um ciclo no qual ele esteve preso a vida toda, ele abraça quem sempre foi, e quem sempre amou. Ele quebrou o ciclo, e na maior das escuridões, pela primeira vez escolhe o que lhe faz feliz.
Como um vagalume, mesmo em tempos sombrios, a luz continua a existir. A diferença é que agora as palavras que sempre estiveram presas dentro dele finalmente encontraram um destino digno.


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