COLUNA: TROPA DE ELITE(2007) E A JUSTIFICATIVA DAS FALSA-PRETENSÕES ESTATAIS.
- João Bornhofen

- 31 de jul. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de out. de 2021
CARREGANDO O PESO DO MUNDO.

José Padilha pode ser visto, hoje, nesse emaranhado político-social deturpado e histérico, como um artista extremista, responsável pela emasculação dos diversos movimentos reacionários que, segundo seus críticos, surgiram após seu filme de maior reconhecimento nacional: Tropa de Elite (José Padilha, 2007).
Ledo engano. A orgia pseudo-intelectual que atualmente vemos em canais como Twitter, Instagram e grande mídia cumprem à si a distribuição de informação sempre visando o alcance e não, necessariamente, a veracidade das informações dadas. José Padilha, diretor desse filme, que lhe angariou a Palma de Ouro em 2008, com certeza prezou pela sua verbalização anti-petismo, e sim, isso eventualmente ligou o seu protagonista , capitão Nascimento ( Com uma entrega brilhante de Wagner Moura, e responsável por lançar ele Brasil afora) à crescente onda de ultra conservadorismo, e sim, muita gente ainda tem o primeiro Tropa de Elite como uma ode ao ódio à princípios sócio-educativos, porém demarco aqui que, Padilha é, acima de tudo, um questionador do poder estatal, e tamanho esse que disserta o quão ineficiente e truculento ele é.
As críticas ao primeiro filme, visto que o segundo, de 2010, lida com a também crescente, na época, problemática das milícias (que hoje reitera ainda mais o valor da segunda obra com seu roteiro futurista), não foram escancaradas apenas em solo tupiniquim. Padilha recebeu árduas críticas onde quer que ele tenha exibido o filme. Seja em Berlim, seja nos EUA, havia uma defesa ao poder truculento e demagogo que a policia tinha (Em especial a força de elite policial carioca: O Batalhão de Operações Especiais-BOPE), e como isso era justificado no filme como uma remanescente de "Nós contra eles", "Bandido bom é bandido morto", "Vagabundo tem que morrer", além de mostrar o quão inóspita e também culpada a classe elitizada também era pelo seu consumo de drogas , gerando sustentação ao tráfico, e nunca observar para onde ia o financiamento angariado aos "chefes do morro" e por aí vai.
Então lançado primeiramente num esquema "Home-Video", em que o corte original do filme foi pirateado e visto por milhares de brasileiros muito antes de chegar no cinema. Fato curioso que o próprio ministro da cultura na época, Gilberto Gil, tinha uma cópia pirata e o próprio Padilha sabendo disso foi buscar , pessoalmente, a cópia de seu filme ( https://www.youtube.com/watch?v=ZEHMssJZ0i0&t=166s). Absurdos da esquerda pró-arte à parte, o filme alavancou a carreira de Padilha, que até então, havia trabalhado com documentários e filmes biográficos, e deu a ele e seu cinismo fama internacional, possibilitando assim futuras produções suas como o remake do Robocop de 2014, a série Narcos (Netflix,2015) e sua vindoura sequência, esta um pouco menos polarizadora que a primeira, e consequentemente com menor apelo internacional, apesar da alta lucratividade.
Sejamos honestos aqui, não é de todo um espanto as acusações que Padilha sofreu por iniciar o que viria a ser um movimento reacionário e que futuramente impulsionaria uma direita-ultra-conservadora, tendo em vista a personificação na qual Wagner Moura abraçou , para anos depois se arrepender. Capitão Nascimento nada mais é do que uma deturpação do molde americano "Self made man", à lá brasileira. Ele não é carismático, abusa moralmente a sua esposa, que está grávida, e prossegue o filme com um dote moralista bem hipócrita ,nada condizente com suas ações.
Há de se notar, porém, e aqui cabe não uma defesa ao diretor, porque em si ele trabalha com ficção no meio artístico então nunca deveu desculpas à ninguém, mas sim uma justificativa, plausível, à caracterização e trabalho da sua persona como máquina de desconstrução à paradigmas sociais, afinal, Capitão Nascimento não é um herói, muito menos um anti-herói. Ele é nosso protagonista, nosso espectro de perspectiva, e por conta disso, todo o âmbito problemático de suas ações e diretrizes começam, como num passe de mágica, a fazer sentido, quando entendemos o seu papel na narrativa entregue. Temos aqui um Dante Alighieri, autor e um dos protagonistas da Divina Comédia, alguém que nos insere em uma projeção de mundo específica , e consequentemente adota costumes e morais condizentes com o indivíduo ali representado. Temos um agente especial de operações policiais, que está há anos em serviço, vendo o que a falência social gerada pelo descaso governamental tem de pior a oferecer, seria no mínimo inverossímil ter ele como paladino da moral e justiça à fins pseudocrístão. Aqui temos um personagem que viu em primeira mão o estado dizendo à ele: "Sim. Falimos." Nada mais justo do que ele responder de volta, sendo o mais inepto, respondendo com a mesma violência que sempre recebeu. Seja da corporação corrupta em que trabalha, ou seja do ineficiente gestor que se preocupa em resolver o inexistente: o estado.
Padilha trabalha então, numa dicotomia entre ficar perplexo com as ações horrendas praticadas pelo personagem de Moura, ao mesmo tempo que não nos permite enxergar uma única luz no fim do túnel, justificando assim como única medida lógica, a truculência para que se exploda então o fim do túnel, e que a luz dos tiros ao menos sirva para iluminar parte do caminho.
Não custa frisar: Capitão Nascimento é e sempre será um produto social, mas agenciado por um orgão superior, que mesmo sem obrigá-lo a moldar seu caráter de ódio, ao menos é conivente e até incentiva-o à isso. Não haveria melhor representação da falência estatal do que o momento em que para corrigir a morte de um jovem que torturara uma cena antes, Nascimento convoca seu "esquadrão da morte" e vai tirar satisfação com quem tirou a vida do garoto, após a mãe dele aparecer no gabinete de Nascimento, culpando-o pela morte do aviãozinho.
E para os desinformados que insistem em crer que Padilha quis moldar Nascimento para ser um ídolo nacional, como ele eventualmente se tornou, fica a retrospectiva da época que Padilha era considerado um radical de esquerda, dirigindo filmes como Ônibus 174(2002), ou Garapa (2009). Talvez a genialidade do diretor esteja em sempre apontar o dedo para o desconforto em que vivemos, e ousando alarmar o quanto tornamos o absurdo mundano. Vivemos numa cultura do absurdo, e assim como na parábola da caverna de Platão, quem um dia passa a enxergar fora da caverna, fica eternamente condenado à impossibilidade em desenxergar.





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